Vestida de preto numa chaise-longue, a meia luz vermelha. Já com um cigarro aceso e com um copo de vinho tinto na mão. Enquanto fala vai lentamente aproximando-se, bêbeda, de alguém no público. Maquilhagem desfeita, baton repassado, rimel desfeito. Tem tanto de sensual como de magoada. O texto é dito a alguém no público, a quem seduz e interpela.
Era isto que querias, não?
As insinuações em cada comentário, os teus olhares lascivos para um corpo que passava, a ideia de que ter outro corpo entre os nossos seria romântico, uma consumação do amor que temos um pelo outro. Porque o outro corpo seria sempre outro corpo, não comos os nossos, não como o amor (ah, o amor, o amor), não como o amor que sentiamos, um corpo para ser usado, para violarmos conscientemente, para fugirmos a essa rotina que os outros casais têm mas nós nunca teriamos.
Chegar a casa cansado, cozinhar, comer em silêncio, encher os pratos em silêncio, olhar a televisão acesa em silêncio, perguntar em silêncio “Está bom?”, “Queres mais?”, “Como foi o teu dia?”, repetir a dose em silêncio, dizer em silêncio que já a semana passada comemos isto, combinar em silêncio o que vamos comer amanhã, o que jantamos amanhã, que compras faremos amanhã, que repetição amanhã, levantar os pratos em silêncio, lavá-los em silêncio, recostar no sofá em silêncio, comentar um programa que vemos em silêncio como se não fôssemos o tipo de pessoas que vê aquele tipo de programas e muito menos o tipo de pessoas que acredita em pessoas-tipo, deitar em silêncio, em silêncio negar o sexo porque cansados, em silêncio um falso carinho, em silêncio não ser nenhuma dessas pessoas que já não têm nada para dizer.
Era para evitar isto, certo? Era por sermos diferentes que olhavas lânguidamente os longos cabelos lascivos, à noite, em bares que frequentavas antes de estarmos juntos, a reencontrar corpos que tinhas percorrido antes de me conheceres.
Era pelo amor que me dizias ao ouvido, com ou sem mo lamberes, que bem as minhas pernas ficariam entrelaçadas nas dela, que belo o meu corpo nu em lençois purpura se ela se juntasse a nós numa noite, que poético os dois a usarmos o corpo dela, a movermo-nos sincronamente em direcção ao orgasmo um do outro. E elas no meio, corpos usados, claro. Não que os quisesses, não que estivesses farto do meu, não que te excitassem aqueles decotes exageradamente abertos, não que elas te provocassem à minha frente, não que fosses um porco nojento à procura de sexo extra, gratuito e fácil, não que fosses tu uma puta, não que fosses um ordinário, reles e baixo, mas só um poeta, um adorador do amor real e verdadeiro, um amante da sensualidade. Porque nos amávamos e o amor é lindo, porque confiávamos um no outro, cegamente. Ah, as frases inflamadas, as juras de amor eterno, de adolescente em filmes americanos, cheio de paixão e de modernismo, de como éramos um casal cosmopolita, de como sexo é liberdade e de como somos livres. Ah, usar calão no meio de referências cinéfilas. Ah, o verbo foder no meio de uma citação de Stendhal ou agarrares-me os cabelos por trás com força e chamares-me de puta só porque vimos o Marlon Brando usar manteiga e isso é lindo e poético e sensual e romântico. Ah, vires-te dentro de mim enquanto pensas abertamente noutra mulher porque isso é liberdade e o amor é liberdade e o sexo é liberdade e morderes-me a ponta da orelha enquanto me tocas é liberdade.
E assim o jantar. Tudo programado e eu sem desconfiar de nada. O meu melhor vestido, também o mais curto, apenas porque me disseste para me arranjar sensualmente, porque me querias comer essa noite. A mim, porque me querias a mim, nas tuas palavras. Passei a minha tarde a preparar o meu corpo, com cremes que deixariam o teu corpo escorregar pelo meu, e com um baton que te deixaria marcado pelo corpo fora. Uma cinta de ligas eternamente adiada, uma roupa interior nova, o sonho de uma noite a dois, um sexo fora da rotina com que normalmente me fodias, como um carro que engrena na mesma rotação de sempre, como um trabalhador mecanizado que agarra o meu trabalho com a mesma mecanicidade de sempre, no seu modo fordiano de trabalho, sempre em esforço, numa questão de produtividade, com sons falsos e gemidos que já conhecia.
E o vinho a escorrer-me, ora pelo corpo, ora pelos lábios, como se fosses tu o vinho, como se fossem as tuas mãos de antigamente o vinho, como se fossem os teus lábios aquele vinho que bebia e que às vezes deixava provocativamente escorrer pelo canto do lábio, como se fosse o teu esperma e te tivesse feito vir na minha boca ali, na mesa de um restaurante caro, com pessoas à nossa volta, e eu a julgar que estávamos só os dois, que era sexo puro o jantar que tinhamos.
E de repente, num continuo, eu nas tuas mãs, nós num taxi, nós num quarto de hotel com veludo e cetim e o meu corpo cada vez mais nu e cada vez mais escorregadio e tu a um canto, totalmente vestido, a olhar-me enquanto em despias e sem uma palavra. Espera, disseste-me. E desapareceste. E na minha cabeça mil fantasias contigo. Tu nu, tu a apareceres-me em robes também eles de cetim e veludo, talvez pretos, talvez erecto, talvez a possuir-me, talvez a dizer-me ao ouvido que a vida seria para sempre assim, feita desta paixão, feita deste querer, deste sexo que não existia para mais ninguém senão para nós.
E uma mulher pela tua mão, loira, de saltos altos, de cabedal, como nos filmes, com os lábios demasiado pintados de vermelho, a chegar-se à nossa cama de casal improvisada, a pôr a sua bota de cano alto na nossa cama, junto ao meu corpo (e eu cada vez mais pequenina, cada vez a saber menos do que se passava a minha volta).
E quis levantar-me e quis sair e quis fugir e tu sabes como quis isto tudo. Ah, mas o mistério do sexo é maior que o mistério do amor e só ao sexo tudo é permitido. Porque tu és assim, talvez como todos os homens, talvez só disfarces menos, talvez seja eu que estou apenas mais atenta, mas tu és assim. Só o mistério do sexo te satisfaz, só a ele és fiel, só ele te consome.
Sentaste-te de novo na chaise-longue que tinhas reservado para ti e mandaste , ordenaste, disseste com um ar autoritário que nos tocássemos. Ela despiu-me, e beijou-me o pescoço e beijou-me os ombros e lambeu-me o peito e tocou-me nas mamas e continuou a beijar-me a barriga e depois a barriga das pernas e depois no meio destas e eu nada. Nada de prazer, só o ver a tua cara ao longe, sedento de mais, como se visses apenas mais um filme porno no computador, desses que finjo que não sei que os vês quando estou fora. Apenas um prazer na tua cara, como se eu não fosse eu e ali apenas duas mulheres a tocarem-se. Mas eu gemia, não de prazer, mas para que tu tivesses prazer e deixei-me ser tocada e deixei-me despir, ser lambida, ser violada por outra mulher que, muito profissionalmente e sem razão nenhuma, gemia também, cada vez mais alto, só de me chupar para tu veres, como se de me chupar ela pudesse ter algum prazer, seu idiota.
E isto durou uma hora, em que ela se deixava violar por dinheiro e eu me deixava violar por te amar, para te satisfazer, embora me sentisse nojenta, embora o meu corpo bêbado só aguentasse aquilo por saber que era a tua fantasia, e talvez me amasses mais depois disso, talvez tu me penetrasses como nunca depois disto tudo.
Levantaste-te, caminhaste até mim trémulo e paraste à minha frente, eu de joelhos e tu de pé. Antes de me dares uma chapada. E de me chamares de puta, rameira, porca, deslavada, fácil, chupa-pilas, saca-broches, tudo. Antes de me mandares com umas notas para a cara, pegares no casaco e saíres porta fora, batendo com a porta.
A mim? Puta, eu? Porca eu? Dinheiro a mim?
Tu que durante anos estragaste tudo o que tinhamos a olhar como o rabo de uma mulher no metro vincava as suas calsas justas, tu que repetias o amor em frases longas mas piscavas o olho nas minhas costas a qualquer secretária de balcão a quem conseguisses ver a cor do soutien por dentro do seu decote, tu que ficavas em longas noites fora em supostas reuniões mas que frequentavas e flirtavas e rias e embebedavas outras mulheres, só pela fantasia de puderes ter outra.
Ah, o mistério do sexo. Só esse existe para os homens, só o tesão de serem homens e andarem de pau feito, como se fossem capazes de foder o mundo inteiro numa vida.
Hei-de matar o teu sexo, homem, hei-de matar o teu sexo e morrerás às mãos de um mulher, como qualquer homem devia.